Um plano pessoal para momentos de crise emocional é uma ferramenta simples, prática e muito importante para quem vive emoções intensas. Ele serve para aqueles momentos em que a mente fica estreita, o corpo entra em alerta, os impulsos aparecem com força e parece impossível pensar com clareza. Nesses momentos, a pessoa pode saber muitas habilidades, mas não lembrar de nenhuma. Pode ter boas intenções, mas agir no impulso. Pode querer se cuidar, mas sentir que a dor manda mais.
A DBT, Terapia Comportamental Dialética, ensina que crises emocionais precisam de respostas específicas. Nem sempre o objetivo é resolver a vida inteira na hora. Muitas vezes, o primeiro objetivo é sobreviver ao pico sem piorar a situação. O manual de habilidades em DBT descreve a tolerância ao mal-estar como a capacidade de tolerar e sobreviver a situações de crise sem piorar as coisas, e apresenta as habilidades de sobrevivência a crises como recursos para lidar com emoções, impulsos e fatos dolorosos quando não é possível melhorar tudo imediatamente.
Um plano de crise organiza essas respostas antes da crise acontecer. Ele é como um mapa escrito pela sua mente sábia para ser usado quando a mente emocional estiver no comando. Em vez de tentar improvisar no pior momento, você deixa preparado: sinais de alerta, habilidades que funcionam, pessoas de apoio, lugares seguros, formas de reduzir risco, frases úteis e próximos passos.
Esse plano não substitui terapia, atendimento médico ou ajuda de emergência quando há risco. Mas pode ser uma ponte importante entre o início da crise e o apoio necessário. Também pode ajudar em crises que não envolvem risco de vida, mas envolvem impulsos que podem piorar relacionamentos, trabalho, saúde, sono, autoestima ou segurança.
O que é uma crise emocional?
Uma crise emocional é um período de sofrimento intenso, geralmente com sensação de urgência. A pessoa sente que precisa agir agora, resolver agora, fugir agora, se aliviar agora ou fazer alguma coisa imediatamente. O livro DBT: Terapia Comportamental Dialética Para Leigos explica que uma crise costuma ser um evento definido, com estresse ou trauma, muitas emoções fortes e dolorosas, um começo e um fim; também destaca que as habilidades de sobrevivência a crises não são habilidades de resolução de problemas, mas maneiras de passar por momentos difíceis.
Essa distinção é essencial. Se algo pode ser resolvido agora de forma efetiva, talvez a melhor habilidade seja solução de problemas. Mas, se a emoção está alta demais, se o problema não tem solução imediata ou se agir no impulso vai piorar a vida, a prioridade muda: atravessar a crise.
Exemplos de crise emocional:
- Você sente raiva intensa e quer mandar uma mensagem agressiva.
- Você sente medo de abandono e quer implorar, acusar ou checar sem parar.
- Você sente vergonha e quer desaparecer, cancelar tudo ou se atacar.
- Você sente tristeza intensa à noite e não sabe como atravessar até amanhã.
- Você sente vontade de usar álcool, drogas, comida, compras ou sexo para anestesiar a dor.
- Você sente impulso de se machucar ou colocar sua vida em risco.
- Você recebe uma notícia difícil e não consegue pensar nos próximos passos.
- Você está em uma discussão e percebe que pode perder o controle.
Um plano de crise é feito para esses momentos. Ele não precisa ser perfeito. Precisa ser claro o suficiente para ser usado quando pensar estiver difícil.
Por que fazer o plano antes da crise?
Porque, durante a crise, a mente emocional costuma apagar opções. A pessoa pode até conhecer STOP, TIP, prós e contras, distração saudável, autoacalmar-se, melhorar o momento e aceitação radical. Mas, quando a emoção chega a 90 ou 100, tudo isso pode sumir. O corpo quer agir, e a memória de habilidades fica pequena.
O manual de habilidades para pacientes orienta que, antes de um impulso de crise avassalador, a pessoa escreva seus prós e contras, leve a lista consigo e ensaie várias vezes; quando a crise acontecer, deve revisar a lista repetidamente, imaginando consequências positivas de resistir ao impulso e consequências negativas de ceder a comportamentos de crise.
Essa orientação vale para o plano de crise inteiro. Você prepara antes para não depender apenas da memória durante o pico. É como deixar uma lanterna perto da cama antes de faltar luz. Na hora da escuridão, você não quer procurar a lanterna no escuro.
Fazer o plano antes também ajuda a perceber padrões. Quais são seus sinais de alerta? Que situações costumam ativar crises? Quais habilidades já funcionaram? Quais pessoas ajudam? Quais pessoas pioram? Quais lugares são seguros? Quais comportamentos parecem aliviar, mas depois custam caro?
Primeira parte: sinais de alerta
O primeiro bloco de um plano de crise deve listar sinais de alerta. São pistas de que você está entrando em uma zona de risco emocional. Algumas pessoas só percebem a crise quando já estão em 100. O plano ajuda a reconhecer antes, quando ainda há mais chance de escolher.
Sinais físicos:
- Coração acelerado.
- Respiração curta.
- Calor no rosto.
- Tensão no maxilar, mãos ou ombros.
- Nó no estômago.
- Tremor.
- Vontade de andar sem parar.
- Fadiga extrema ou sensação de desligamento.
Sinais mentais:
- Pensamentos de “não aguento mais”.
- Certezas rápidas, como “ninguém se importa”.
- Vontade de resolver tudo imediatamente.
- Ruminação repetitiva.
- Catastrofização.
- Pensamentos de vingança, fuga ou desistência.
- Dificuldade de lembrar habilidades.
Sinais comportamentais:
- Checar celular repetidamente.
- Escrever mensagens longas no impulso.
- Isolar-se sem avisar ninguém.
- Parar de comer ou dormir.
- Usar substâncias para aliviar.
- Dirigir de forma perigosa.
- Gritar, acusar ou ameaçar.
- Procurar meios de se machucar.
Seu plano deve responder: “como sei que estou entrando em crise?”. Quanto mais cedo você reconhece, mais habilidades ficam disponíveis.
Segunda parte: nome da crise e intensidade
Durante a crise, dê nome ao que está acontecendo. Isso parece simples, mas ajuda a sair do caos. Em vez de “minha vida acabou”, diga: “estou em uma crise de medo de abandono”, “estou em uma crise de vergonha”, “estou em uma crise de raiva”, “estou com impulso de evitar”, “estou com risco de fazer algo perigoso”.
Depois, dê uma nota de 0 a 100 para a intensidade. Essa medida ajuda a escolher habilidade. Se a emoção está em 50, talvez você consiga verificar os fatos ou conversar. Se está em 95, talvez precise primeiro de TIP, afastamento de risco, apoio imediato ou um plano de segurança.
Um exemplo:
- Emoção: raiva.
- Intensidade: 90.
- Impulso: mandar mensagem agressiva.
- Risco: piorar relacionamento e sentir vergonha depois.
- Primeira habilidade: STOP e afastar o celular.
Nomear não resolve tudo, mas organiza o começo.
Terceira parte: comportamentos que pioram a crise
Um plano de crise precisa listar quais comportamentos você deve evitar no pico. Isso não é para se culpar. É para reconhecer padrões. Quais ações parecem aliviar agora, mas pioram depois?
- Mandar mensagens acusatórias.
- Ligar repetidamente.
- Gritar ou humilhar alguém.
- Usar álcool ou drogas para aliviar.
- Dirigir com emoção muito alta.
- Tomar decisões definitivas à noite.
- Terminar relacionamentos no pico da emoção.
- Gastar dinheiro impulsivamente.
- Procurar conteúdo que aumenta tristeza ou raiva.
- Ficar sozinho quando há risco.
- Manter acesso a meios de autoagressão.
A ficha de prós e contras da DBT lembra que um impulso de ação configura crise quando é muito forte e quando agir de acordo com ele piorará as coisas no longo prazo. Por isso, o plano deve deixar claro: “quando eu estiver em crise, estas ações não são seguras para mim”.
Quarta parte: primeiras habilidades para os primeiros minutos
Nos primeiros minutos da crise, escolha habilidades simples. Não comece por algo complexo. A mente pode estar muito ativada. O manual para terapeutas apresenta estratégias de crise como atender à emoção, explorar o problema agora, focar no momento imediato, identificar eventos que desencadearam a emoção, formular o problema, focar em solução de problemas, tolerância do afeto e compromisso com um plano de ação.
Para uso pessoal, você pode transformar isso em uma sequência simples:
- STOP: pare antes de agir.
- Afaste risco imediato: celular, objetos perigosos, substâncias, local inseguro.
- Baixe o corpo: TIP, respiração, água fria segura, movimento, relaxamento.
- Nomeie: emoção, impulso e intensidade.
- Escolha uma habilidade de crise: distração, autoacalmar-se, melhorar o momento ou prós e contras.
- Peça apoio se necessário: pessoa segura, terapeuta, serviço de emergência.
Escreva no plano exatamente o que você fará nos primeiros cinco minutos. Quanto mais específico, melhor.
Quinta parte: habilidades que funcionam para você
Nem toda habilidade funciona igual para todo mundo. O manual do paciente destaca que as habilidades de DBT são amplas e precisam ser customizadas, porque uma habilidade excelente para uma pessoa pode não ser boa para outra.
Seu plano deve ter uma lista pessoal de habilidades testadas. Separe por emoção ou por tipo de impulso.
Quando a raiva estiver alta
- STOP.
- Colocar o celular longe por vinte minutos.
- Fazer exercício intenso breve, se for seguro.
- Lavar o rosto com água fria.
- Escrever a mensagem sem enviar.
- Pedir pausa na conversa.
- Depois usar DEAR MAN ou solução de problemas.
Quando o medo de abandono estiver alto
- Verificar os fatos.
- Fazer prós e contras de mandar mensagem.
- Usar distração saudável por tempo definido.
- Ler uma frase de autovalidação.
- Combinar contato com alguém seguro.
- Esperar antes de pedir garantias.
Quando a vergonha estiver alta
- Nomear: “isso é vergonha”.
- Usar ação oposta, se for seguro.
- Fazer autoacalmar-se pelos sentidos.
- Evitar se atacar verbalmente.
- Falar com alguém que não invalide.
- Reparar apenas se houver algo real a reparar.
Quando a tristeza estiver alta
- Tomar banho e comer algo simples.
- Usar autoacalmar-se com tato, som ou paladar.
- Mandar mensagem para uma pessoa segura.
- Melhorar o momento com encorajamento.
- Evitar decisões definitivas à noite.
- Planejar uma ação pequena para amanhã.
O plano fica mais forte quando é seu, não genérico.
Sexta parte: pessoas de apoio
Em crise, algumas pessoas ajudam e outras pioram. Seu plano deve diferenciar. Uma pessoa de apoio não precisa resolver sua vida. Ela precisa ser alguém que ajude você a atravessar sem piorar.
Liste:
- Nome de uma pessoa para conversar.
- Nome de uma pessoa para ficar perto de você se houver risco.
- Nome de um profissional, se você tiver.
- Serviços de emergência da sua região.
- O que você pode dizer ao pedir ajuda.
Um pedido claro pode ser:
“Estou em crise e preciso atravessar os próximos vinte minutos sem agir no impulso. Você pode ficar comigo por telefone?”
Ou:
“Estou com risco de me machucar. Preciso não ficar sozinho agora. Pode me ajudar a procurar atendimento?”
O manual para terapeutas mostra que, em contextos de treinamento de habilidades, quando alguém está em crise, uma orientação é encaminhar ao terapeuta individual e ajudar a aplicar habilidades de tolerância ao mal-estar até que o contato seja estabelecido. Em um plano pessoal, isso vira uma ideia simples: use habilidades enquanto busca apoio adequado.
Sétima parte: segurança em primeiro lugar
Se houver risco de suicídio, autoagressão, violência, intoxicação, overdose, direção perigosa ou qualquer ação que possa causar dano grave, o plano precisa priorizar segurança. Nesses momentos, a pergunta não é “qual habilidade é mais elegante?”. A pergunta é: “como reduzo risco agora?”.
O manual para terapeutas orienta que, diante de ameaças de suicídio iminente ou comportamento autolesivo, deve-se avaliar risco, consultar serviços de emergência quando necessário, seguir o plano de crise já preparado, remover ou fazer remover itens letais, manter a posição de que o suicídio não é uma boa solução, expressar esperança e soluções de enfrentamento, e manter contato enquanto o risco for iminente e alto até que o cuidado seja estabilizado.
Para um plano pessoal, isso pode ser traduzido em passos concretos:
- Não ficar sozinho se houver risco alto.
- Afastar ou entregar meios de dano a alguém seguro.
- Sair de locais perigosos.
- Evitar álcool ou drogas durante a crise.
- Ligar para uma pessoa de apoio.
- Entrar em contato com profissional de saúde, se houver.
- Procurar serviço de emergência se o risco for imediato.
No Brasil, o CVV oferece apoio emocional e prevenção do suicídio pelo telefone 188, com atendimento gratuito, sigiloso e 24 horas por dia; em risco iminente, procure emergência local ou acione o serviço de emergência da sua região.
Oitava parte: ambiente seguro
O ambiente pode piorar ou ajudar. Durante uma crise, talvez seja necessário mudar o ambiente antes de tentar pensar melhor.
Pergunte:
- Estou perto de objetos, lugares ou substâncias que aumentam risco?
- Estou sozinho quando não deveria estar?
- Estou em uma conversa que está escalando?
- Estou com o celular na mão quando meu impulso é mandar mensagem?
- Estou em um local onde posso dirigir impulsivamente?
- Estou vendo conteúdos que alimentam a emoção?
Ações possíveis:
- Ir para um cômodo mais seguro.
- Ficar perto de outra pessoa.
- Entregar chaves, medicamentos, objetos cortantes ou substâncias a alguém seguro, quando houver risco.
- Colocar o celular longe por tempo definido.
- Sair de uma discussão com uma frase de pausa.
- Ir a um local público seguro, se isso ajudar.
- Procurar atendimento.
Habilidade não é apenas pensamento. Muitas vezes, é mudar o ambiente para reduzir a chance de um comportamento perigoso.
Nona parte: frases de mente sábia
Em crise, frases curtas ajudam mais do que explicações longas. Escreva no seu plano frases que você consiga ler quando estiver em emoção alta.
- “Meu trabalho agora é não piorar.”
- “Isso é uma crise, não minha vida inteira.”
- “Eu posso esperar dez minutos antes de agir.”
- “A emoção é forte, mas não é uma ordem.”
- “Primeiro segurança, depois solução.”
- “Não preciso decidir minha vida no pico.”
- “Vou usar uma habilidade antes de responder.”
- “Pedir ajuda é habilidade.”
- “Eu já atravessei ondas antes.”
- “Depois eu resolvo; agora eu atravesso.”
Essas frases não precisam convencer você completamente. Elas só precisam criar uma pequena pausa.
Décima parte: o que fazer depois da crise
Um bom plano não termina quando a emoção baixa. Depois da crise, é hora de aprender com o que aconteceu. Não para se culpar, mas para fortalecer o próximo plano.
Pergunte:
- O que disparou a crise?
- Quais vulnerabilidades estavam presentes? Sono, fome, dor, substâncias, estresse, isolamento?
- Qual foi o primeiro sinal de alerta?
- Qual impulso apareceu?
- Qual habilidade ajudou?
- Qual habilidade não ajudou?
- Eu pedi apoio cedo o suficiente?
- Houve algo que preciso reparar?
- O plano precisa ser atualizado?
O manual de DBT ensina análise de comportamento justamente para entender eventos desencadeantes, fatores de vulnerabilidade, links entre o evento e o comportamento-alvo, e fatores que mantêm esses comportamentos.Uma revisão simples depois da crise ajuda a transformar dor em aprendizado.
Modelo simples de plano de crise
Você pode copiar e preencher:
Meu plano pessoal de crise emocional
1. Meus sinais de alerta:
- ________________________________________
- ________________________________________
- ________________________________________
2. Emoções que costumam aparecer:
- ________________________________________
- ________________________________________
3. Comportamentos que pioram minha crise:
- ________________________________________
- ________________________________________
- ________________________________________
4. O que farei nos primeiros cinco minutos:
- ________________________________________
- ________________________________________
- ________________________________________
5. Minhas habilidades principais:
- STOP: ________________________________________
- TIP: ________________________________________
- Distração saudável: ________________________________________
- Autoacalmar-se: ________________________________________
- Melhorar o momento: ________________________________________
- Prós e contras: ________________________________________
6. Pessoas de apoio:
- Nome/telefone: ________________________________________
- Nome/telefone: ________________________________________
- Profissional/serviço: ________________________________________
7. Segurança:
- Meios de risco que preciso afastar: ___________________________
- Lugar seguro para ir: ________________________________________
- Quando procurar emergência: _________________________________
8. Frases de mente sábia:
- ________________________________________
- ________________________________________
- ________________________________________
9. Depois da crise, vou:
- Revisar o que aconteceu.
- Atualizar o plano.
- Reparar algo, se necessário.
- Buscar apoio, se necessário.
Exemplo de plano preenchido
Sinais de alerta: começo a checar o celular, sinto calor no rosto, penso “ninguém se importa”, paro de comer, quero mandar mensagens longas.
Comportamentos que pioram: mandar várias mensagens, acusar, olhar redes sociais da pessoa, beber para aliviar, ficar sozinho sem avisar ninguém.
Primeiros cinco minutos: colocar o celular em outro cômodo, lavar o rosto com água fria, respirar com expiração longa, nomear a emoção e ler prós e contras.
Habilidades: STOP, TIP, caminhar dez minutos, tomar chá, ouvir playlist calma, escrever sem enviar, ligar para uma amiga se a emoção passar de 85.
Pessoas de apoio: amiga segura, terapeuta, familiar que não julga.
Frase: “demora não é prova de abandono; posso esperar antes de agir”.
Depois: verificar fatos, decidir se preciso mandar uma mensagem clara, dormir antes de tomar decisões definitivas.
Plano de crise para conflitos
Se suas crises costumam acontecer em discussões, seu plano pode incluir:
- Frase de pausa: “quero continuar, mas preciso de vinte minutos para não piorar”.
- Regra: não discutir quando a emoção estiver acima de 80.
- Habilidade inicial: STOP.
- Habilidade corporal: água fria, caminhada, respiração.
- Depois: DEAR MAN para pedir, GIVE para preservar relação, FAST para manter autorrespeito.
- Limite: se houver gritos, ameaças ou risco, sair da conversa e buscar segurança.
A pausa não é abandono. É prevenção de dano.
Plano de crise para tristeza intensa
Se suas crises aparecem como tristeza, vazio ou desespero, seu plano pode incluir:
- Não ficar sozinho se houver risco.
- Tomar banho e trocar de roupa.
- Comer algo simples.
- Mandar mensagem para uma pessoa segura.
- Usar autoacalmar-se pelos sentidos.
- Evitar músicas, fotos ou conteúdos que aumentem desespero.
- Fazer uma lista de razões para atravessar a noite.
- Procurar ajuda imediata se houver risco de autoagressão ou suicídio.
Em tristeza profunda, o plano precisa ser concreto. “Cuidar de mim” é amplo demais. “Tomar banho, comer pão, ligar para Ana e deitar com luz acesa” é mais utilizável.
Plano de crise para impulsos aditivos
Para crises ligadas a álcool, drogas, compulsões, compras, apostas, sexo impulsivo ou outros comportamentos que aliviam agora e pioram depois, o plano precisa incluir redução de acesso e apoio.
O manual para terapeutas, ao falar de recaídas e redução de danos, recomenda preparar um plano com antecedência: a quem telefonar, como lembrar de voltar à abstinência, o que fazer para motivar-se, quais habilidades usar e como ensaiar mentalmente o plano de crise. Também sugere entrar em contato com pessoas efetivas, livrar-se de tentações, revisar habilidades e pedir ajuda a família, amigos, mentores, pastores, conselheiros ou grupos de apoio.
Um plano simples pode incluir:
- Remover acesso ao comportamento quando possível.
- Não ficar sozinho em horários de maior risco.
- Ligar para uma pessoa antes de agir.
- Usar prós e contras.
- Sair do ambiente de gatilho.
- Usar TIP para baixar urgência.
- Ir a grupo de apoio, se fizer parte do seu caminho.
- Retomar imediatamente se houver lapso, sem cair em “já estraguei tudo”.
Plano de crise em relacionamentos abusivos
Se a crise envolve relacionamento abusivo, ameaça, violência ou medo pela própria vida, o plano precisa ser feito com orientação especializada. A DBT enfatiza “segurança em primeiro lugar” em situações de abuso físico ou ameaça à vida, destacando que o período de término ou saída pode ser perigoso e que pode ser necessário um refúgio de proteção e um plano de segurança para sair da relação, com ajuda de profissionais experientes ou serviços especializados.
Nesse caso, não basta fazer um plano emocional. É preciso plano de segurança real: onde ir, quem chamar, documentos, dinheiro, transporte, senhas, crianças, animais, medidas legais, serviços locais e apoio profissional. Não avise a pessoa agressora se isso aumentar risco. Busque orientação especializada.
Uma prática de sete dias
Para construir seu plano sem se sobrecarregar:
- Dia 1: liste seus sinais de alerta.
- Dia 2: liste comportamentos que pioram suas crises.
- Dia 3: escolha três habilidades para os primeiros minutos.
- Dia 4: escreva nomes e contatos de apoio.
- Dia 5: organize passos de segurança.
- Dia 6: escreva frases de mente sábia.
- Dia 7: ensaie o plano mentalmente e deixe em um lugar acessível.
Não espere a próxima crise para testar. Leia o plano em momentos calmos. Ajuste. Mostre a uma pessoa de confiança, se fizer sentido. Leve para a terapia, se você estiver em acompanhamento.
Onde deixar o plano?
Um plano que ninguém encontra não ajuda muito. Deixe acessível:
- No bloco de notas do celular.
- Impresso na carteira.
- Na gaveta ao lado da cama.
- Com uma pessoa de confiança.
- Como imagem favorita no celular.
- Em uma pasta chamada “quando eu estiver em crise”.
- Junto de uma caixa de autoacalmar-se.
Se o celular for gatilho para impulsos, tenha também uma versão em papel.
O plano precisa ser atualizado
O primeiro plano raramente será perfeito. Depois de cada crise, atualize. Tire o que não funcionou. Acrescente o que ajudou. Mude contatos. Ajuste frases. Acrescente sinais de alerta. Remova habilidades que parecem boas no papel, mas não funcionam para você.
Um plano vivo é melhor do que um plano perfeito. Ele acompanha sua experiência. Quanto mais você aprende sobre suas crises, mais claro fica o caminho de saída.
Um plano é um compromisso com o futuro
Fazer um plano de crise é uma forma de respeito por si mesmo. É reconhecer: “há momentos em que eu sofro muito e posso perder acesso à minha mente sábia; por isso, vou deixar cuidado preparado”. Isso não é fraqueza. É habilidade.
A DBT não espera que uma pessoa em crise seja perfeitamente racional. Ela ensina meios para atravessar o pico. Um plano pessoal junta esses meios em uma sequência clara. Ele transforma habilidades em ação. Ele transforma intenção em passos. Ele transforma “não sei o que fazer” em “vou começar por aqui”.
Talvez o plano não faça a dor sumir. Mas pode impedir que a dor vire destruição. Pode impedir uma mensagem que machucaria uma relação. Pode impedir uma recaída. Pode ajudar você a pedir apoio antes do risco aumentar. Pode proteger uma noite difícil. Pode lembrar que a emoção passa. Pode deixar claro que segurança vem primeiro.
Em momentos calmos, escreva para a pessoa que você será em crise. Escreva com gentileza, firmeza e clareza. Essa pessoa não precisa de bronca. Precisa de direção. Precisa de cuidado. Precisa de passos possíveis.
Um plano de crise é isso: uma ponte entre a dor intensa e a próxima escolha segura. É uma maneira de dizer a si mesmo, antes da tempestade: “quando ficar difícil, eu não vou me abandonar”.
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Referências bibliográficas
- Linehan, Marsha M. Treinamento de habilidades em DBT: manual de terapia comportamental dialética para o terapeuta. 2ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2018.
- Linehan, Marsha M. Treinamento de habilidades em DBT: manual de terapia comportamental dialética para o paciente. 2ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2018.
- Galen, Gillian; Aguirre, Blaise. DBT: Terapia Comportamental Dialética Para Leigos. Rio de Janeiro: Alta Books, 2022.
- Koerner, Kelly. Aplicando a Terapia Comportamental Dialética: um guia prático. Novo Hamburgo: Sinopsys, 2020.
- Van Dijk, Sheri. Não deixe as emoções comandarem sua vida: habilidades de DBT para adolescentes. 2ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2025.
- Centro de Valorização da Vida. Atendimento 188. Serviço oficial de apoio emocional e prevenção do suicídio no Brasil.
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