Fazer uma coisa de cada vez parece simples demais para ser uma habilidade terapêutica. Afinal, todos nós sabemos, em teoria, que só podemos viver um momento por vez. Mesmo assim, na prática, muitas pessoas passam o dia tentando fazer várias coisas ao mesmo tempo: comem olhando o celular, conversam pensando na próxima resposta, trabalham enquanto se preocupam com problemas de casa, descansam sentindo culpa, dirigem ruminando uma briga, tomam banho planejando o dia inteiro, tentam dormir revivendo o passado e prevendo o futuro.

A Terapia Comportamental Dialética, conhecida como DBT, chama atenção para isso porque a mente dividida pode aumentar sofrimento. Dentro do módulo de mindfulness, “fazer uma coisa de cada vez” é uma das habilidades “como fazer”, ao lado de adotar uma postura não julgadora e ser efetivo. O manual do paciente apresenta essas habilidades como maneiras de observar, descrever e participar com mais consciência, e inclui fichas específicas para praticar fazer uma coisa de cada vez.

No manual para terapeutas, Marsha Linehan explica que fazer uma coisa de cada vez envolve concentrar a atenção no momento presente e dedicar-se inteiramente a uma tarefa ou atividade. A habilidade inclui duas ideias ligadas entre si: estar plenamente presente neste momento único e fazer uma coisa por vez.

Essa prática é especialmente útil para pessoas com mente acelerada, ansiedade, ruminação, emoções intensas, impulsividade, dificuldade de concentração ou sensação de viver sempre “em outro lugar”. Quando a atenção está dividida, o corpo está aqui, mas a mente está em muitos lugares: no passado, no futuro, em julgamentos, em medo, em comparação, em tarefas inacabadas, em mensagens não respondidas, em conversas antigas. Fazer uma coisa de cada vez é voltar para onde a vida realmente acontece: o agora.

O que significa fazer uma coisa de cada vez?

Fazer uma coisa de cada vez significa trazer a atenção para uma atividade, experiência ou foco por vez. Não é fazer tudo devagar. Não é abandonar responsabilidades. Não é deixar de planejar. Não é fingir que o passado e o futuro não existem. É fazer o que você está fazendo enquanto sabe que está fazendo.

Se está comendo, coma. Se está caminhando, caminhe. Se está planejando, planeje. Se está lembrando, lembre-se. Se está se preocupando, perceba que está se preocupando. A ficha de mindfulness do manual do paciente orienta a fixar-se no agora, estar plenamente presente ao momento único, observar a vontade de estar em outro lugar ou fazer várias coisas ao mesmo tempo, livrar-se das distrações e voltar, repetidas vezes, para uma coisa de cada vez.

Essa última parte é fundamental: voltar repetidas vezes. A mente vai sair. Ela vai lembrar, planejar, julgar, comparar, prever, fantasiar e se distrair. A prática não é impedir que isso aconteça. A prática é perceber e retornar. Cada retorno é um treino.

Por isso, fazer uma coisa de cada vez não é perfeição de atenção. É direção de atenção. Você escolhe para onde voltar.

Por que essa habilidade é tão difícil hoje?

Vivemos em uma cultura que valoriza velocidade, produtividade e disponibilidade constante. O celular chama, o e-mail chega, as redes sociais atualizam, a notícia aparece, a mensagem pisca, a cobrança interna aumenta. Muitas pessoas confundem estar ocupado com estar vivendo bem. Fazer muitas coisas ao mesmo tempo parece sinal de capacidade.

Mas o corpo e a mente pagam um preço. A atenção fragmentada aumenta cansaço. A mente nunca repousa em uma tarefa. A pessoa termina o dia exausta e, ao mesmo tempo, com a sensação de que não viveu nada plenamente. Comeu sem saborear. Conversou sem escutar. Trabalhou sem focar. Descansou sem descansar. Esteve com pessoas queridas sem estar realmente presente.

O manual para terapeutas observa que a multitarefa costuma ser ineficiente: tentar fazer malabarismo com mais de uma coisa ao mesmo tempo não economiza tempo como muitas pessoas acreditam; ao contrário, reduz a capacidade de fazer as coisas com rapidez. O mesmo trecho também destaca que, sem mindfulness ao presente, a vida, os relacionamentos e a beleza passam por nós.

Isso é muito importante. Fazer uma coisa de cada vez não é apenas uma técnica para se acalmar. É uma forma de recuperar contato com a vida.

A dor do presente já é dor suficiente

Um dos ensinamentos mais fortes dessa habilidade é que a dor do momento presente já é dor suficiente. Quando estamos sofrendo, a mente costuma adicionar dores. Se algo dói hoje, lembramos de dores parecidas do passado e prevemos dores do futuro. Uma crítica atual vira todas as críticas antigas. Uma rejeição pequena vira a lembrança de abandonos. Uma preocupação real vira dezenas de cenários catastróficos.

O manual para terapeutas explica que adicionar ao momento presente doloroso toda a dor do passado e toda a dor do futuro é sofrimento demais. Ele também observa que mindfulness pode ajudar na dor física e emocional justamente por manter a pessoa no presente, em vez de somar ruminações antigas e medos futuros à dor atual.

Pense em uma pessoa que recebe uma resposta curta de alguém importante. A dor do presente talvez seja: “essa resposta me deixou inseguro”. Mas a mente pode acrescentar: “sempre sou deixado de lado”, “isso já aconteceu antes”, “vou acabar sozinho”, “ninguém fica”, “no futuro vou sofrer de novo”. A emoção cresce porque a pessoa não está lidando apenas com uma resposta curta. Está lidando com passado, futuro, medo, memória, previsão e julgamento ao mesmo tempo.

Fazer uma coisa de cada vez ajuda a voltar para a dor real do momento. Isso não torna a dor agradável. Mas pode torná-la menor do que a pilha de sofrimentos que a mente acrescenta. A pergunta passa a ser: “o que está acontecendo agora?”. Não “o que isso prova sobre toda a minha vida?”. Não “e se tudo der errado depois?”. Agora.

O passado já passou, mas a mente pode morar nele

A DBT não diz que o passado não importa. O passado importa muito. Nossas histórias, perdas, aprendizados, traumas, vínculos e experiências moldam nossa forma de sentir e reagir. O problema começa quando a mente se perde no passado sem perceber que está fazendo isso.

O manual para terapeutas explica que o passado acabou e não existe no presente, embora possamos ter pensamentos, imagens, emoções e desejos relacionados a ele. O problema começa quando, em vez de estarmos conscientes de que estamos pensando no passado, nos perdemos nele e deixamos de prestar atenção ao que está acontecendo aqui e agora.

Isso acontece com frequência em emoções intensas. Uma pessoa fala em tom seco hoje, e seu corpo reage como se estivesse novamente em uma infância de críticas. Alguém atrasa hoje, e sua mente revive todos os abandonos anteriores. Uma situação atual pode tocar uma ferida antiga, e a emoção do passado entra no presente com força.

Fazer uma coisa de cada vez não manda apagar o passado. Ele ensina a reconhecer: “estou lembrando”. Se for hora de lembrar, lembre com consciência. Se for hora de conversar com alguém agora, volte para a conversa. Se for hora de dirigir, dirija. Se for hora de descansar, descanse. A habilidade não proíbe memória; ela reduz o hábito de morar nela sem escolha.

O futuro ainda não começou, mas a mente pode viver nele

O mesmo acontece com o futuro. Planejar é necessário. Prever riscos pode ser útil. Preparar-se para situações difíceis é uma habilidade importante. O problema é quando a mente sai do planejamento e entra em preocupação sem fim.

O manual para terapeutas lembra que o futuro ainda não existe, embora possamos ter pensamentos, planos e preocupações sobre ele. Viver no presente pode incluir planejar o futuro; a diferença é ter consciência de que planejar é uma atividade do momento presente.

Essa distinção é muito útil. Planejar é uma coisa. Ruminar sobre o futuro é outra. Planejar termina em próximos passos. Preocupação sem mindfulness termina em exaustão. Planejar pode ser: “amanhã terei uma conversa difícil; vou escrever os pontos principais e escolher uma habilidade”. Preocupação pode ser: “e se der errado, e se eu travar, e se a pessoa me rejeitar, e se minha vida desandar?”.

Fazer uma coisa de cada vez permite planejar quando for hora de planejar e voltar quando o planejamento acabou. Se você está trabalhando, trabalhe. Se está descansando, descanse. Se está planejando, planeje com presença. A habilidade não é “nunca pensar no futuro”. É não deixar que o futuro imaginado roube todo o presente.

Fazer uma coisa de cada vez não é fazer uma vida simples demais

Algumas pessoas pensam: “minha vida é complexa; não dá para fazer uma coisa de cada vez”. Mas a DBT não está dizendo que você só pode ter uma responsabilidade por dia. Tarefas complexas têm muitas etapas. Cuidar de uma casa, trabalhar, estudar, criar filhos, administrar um negócio, fazer tratamento, lidar com família: tudo isso envolve muitas ações. A habilidade significa não dividir a atenção sem necessidade.

O manual para terapeutas usa um exemplo simples: se você tem cinco pratos para lavar, só pode lavar um de cada vez. Ele também esclarece que fazer uma coisa de cada vez não impede tarefas complexas com atividades sequenciais; significa estar consciente do que se está fazendo e não agir no automático ou fazer uma coisa enquanto presta atenção em outra.

Em outras palavras: você pode ter muitas tarefas. Mas, neste segundo, está fazendo uma. Se precisa trocar de tarefa, troque com consciência. “Agora vou responder e-mails.” “Agora vou preparar comida.” “Agora vou brincar com meu filho.” “Agora vou planejar amanhã.” A mudança consciente é diferente da fragmentação automática.

Essa forma de viver reduz sensação de caos. A pessoa não precisa carregar mentalmente todas as tarefas enquanto executa uma. Ela pode escolher o próximo passo e estar nele.

O oposto: piloto automático e distração

O oposto de fazer uma coisa de cada vez é viver no piloto automático. O corpo faz uma tarefa enquanto a mente está em outro lugar. Você toma banho sem sentir a água. Come sem sentir o gosto. Escuta alguém sem ouvir. Dirige e chega sem lembrar do caminho. Responde mensagens sem perceber o tom. Passa horas no celular sem decidir estar ali.

Outro oposto é a distração contínua: tentar fazer uma coisa enquanto presta atenção em outra. Ver televisão durante o jantar sem perceber a comida. Ficar no celular enquanto alguém fala. Estudar olhando notificações. Descansar checando trabalho. Trabalhar pensando em brigas. Em todos esses casos, a mente se divide e a experiência perde nitidez.

Às vezes, a distração é usada para evitar dor. Isso pode ter função em algumas habilidades de tolerância ao mal-estar, quando é feito de forma consciente e temporária para atravessar uma crise. Mas viver sempre distraído pode impedir contato com emoções, necessidades e momentos importantes. A DBT valoriza a consciência. Mesmo quando você decide se distrair para sobreviver a uma crise, faça isso sabendo que está usando uma habilidade.

Fazer uma coisa de cada vez e ansiedade

A ansiedade costuma puxar a mente para o futuro. Ela pergunta: “e se?”. E se der errado? E se eu for rejeitado? E se eu não conseguir? E se eu perder o controle? E se algo ruim acontecer? Essas perguntas podem se multiplicar rapidamente.

Fazer uma coisa de cada vez não elimina ansiedade, mas ajuda a reduzir sua expansão. Em vez de tentar resolver todos os cenários, você volta para a ação presente. “Agora estou respirando.” “Agora estou escrevendo uma mensagem.” “Agora estou tomando banho.” “Agora estou entrando na sala.” “Agora estou ouvindo uma pessoa.”

Essa prática é especialmente útil quando a ansiedade cria paralisia. A mente vê um problema grande demais e trava. Fazer uma coisa de cada vez transforma o problema em próximo passo. Não é “preciso resolver minha vida”. É “vou abrir o documento”. Não é “preciso enfrentar todos os meus medos”. É “vou mandar uma mensagem”. Não é “preciso melhorar para sempre”. É “vou praticar uma habilidade pelos próximos cinco minutos”.

Fazer uma coisa de cada vez e tristeza

A tristeza muitas vezes puxa a mente para perdas, arrependimentos e comparações. A pessoa pode ficar presa ao que acabou, ao que faltou, ao que não foi vivido, ao que deveria ter acontecido. Em alguns momentos, lembrar e fazer luto é necessário. Mas, quando a mente fica presa sem escolha, a tristeza pode se aprofundar.

Fazer uma coisa de cada vez ajuda a trazer pequenas âncoras. Levantar e lavar o rosto. Preparar algo para comer. Sentir o cobertor. Mandar uma mensagem. Caminhar até a janela. Ouvir uma música. A tristeza pode continuar presente, mas a pessoa participa de uma ação por vez.

Isso não é negar a tristeza. É impedir que ela transforme todos os momentos em um bloco único de dor. Mesmo em dias difíceis, pequenos atos conscientes podem criar pontos de contato com a vida.

Fazer uma coisa de cada vez e raiva

A raiva acelera. Ela quer resposta, defesa, ataque, justiça imediata. A mente revisa argumentos, cria frases, imagina confrontos, reúne provas. Fazer uma coisa de cada vez pode ser um freio importante.

Quando a raiva sobe, você pode escolher uma única ação consciente: colocar o celular na mesa e não enviar nada por cinco minutos. Respirar. Sentir os pés no chão. Lavar o rosto. Escrever sem enviar. Sair do cômodo. Repetir: “agora, uma coisa: não piorar”.

Depois que a intensidade baixa, a mente sábia pode decidir se é hora de conversar, pedir limite, usar DEAR MAN, reparar ou resolver um problema. A habilidade ajuda a não transformar a raiva do momento em consequências longas.

Fazer uma coisa de cada vez e vergonha

A vergonha costuma dizer: “desapareça”. Ela pode puxar a pessoa para ruminar erros, imaginar julgamentos, evitar pessoas e se atacar mentalmente. A mente vai para todos os lugares onde houve falha ou rejeição.

Fazer uma coisa de cada vez pode ajudar a reduzir o alcance da vergonha. Em vez de “sou um fracasso em tudo”, volte para uma ação específica: “vou responder essa mensagem com honestidade”, “vou tomar banho”, “vou comparecer à sessão”, “vou pedir desculpas”, “vou comer algo”, “vou sair da cama e abrir a janela”.

A vergonha gosta de conclusões globais. A prática de uma coisa por vez devolve especificidade. Você não precisa resolver toda sua identidade. Precisa escolher o próximo comportamento efetivo.

Fazer uma coisa de cada vez nos relacionamentos

Relacionamentos sofrem muito com a atenção dividida. Às vezes, a pessoa está fisicamente presente, mas emocionalmente ausente. Escuta olhando o celular. Responde sem ouvir. Interpreta antes de entender. Pensa na defesa enquanto o outro fala. Leva para a conversa atual todas as brigas antigas e todos os medos futuros.

Fazer uma coisa de cada vez em um relacionamento pode significar ouvir uma frase inteira. Pode significar olhar para a pessoa enquanto ela fala. Pode significar deixar o celular de lado por dez minutos. Pode significar discutir um problema por vez, em vez de trazer todas as mágoas acumuladas. Pode significar dizer: “quero falar disso, mas vamos focar neste ponto primeiro”.

Essa habilidade pode reduzir conflitos porque muitas brigas crescem quando a conversa perde foco. Um atraso vira uma discussão sobre abandono. Uma tarefa doméstica vira todos os ressentimentos do ano. Um pedido vira acusação. Fazer uma coisa de cada vez ajuda a manter a conversa mais clara: “agora estamos falando sobre o que aconteceu hoje”.

Quando se preocupar, preocupe-se

Uma parte interessante da ficha de mindfulness é que ela não diz apenas “não se preocupe”. Ela diz que, quando estiver se preocupando, preocupe-se. Quando estiver planejando, planeje. Quando estiver se lembrando, lembre-se.

Isso pode parecer estranho, mas é muito sábio. A DBT não pede que você nunca pense em problemas. Ela pede consciência. Se você precisa se preocupar por alguns minutos para identificar riscos, faça isso com atenção. Sente-se, escreva as preocupações, veja se há um próximo passo. Depois, quando terminar, volte para o que escolheu fazer.

O problema não é pensar no futuro. O problema é se preocupar enquanto tenta comer, conversar, dormir, trabalhar e descansar, sem perceber que está se preocupando. A preocupação se espalha e contamina tudo. Fazer uma coisa de cada vez coloca bordas: agora estou planejando; agora estou descansando; agora estou conversando.

Exercícios simples para praticar

O manual do paciente inclui ideias práticas como fazer café ou chá com consciência, lavar louça, lavar roupas, limpar a casa, tomar banho devagar e meditar, registrando depois a experiência. Essas atividades são simples justamente porque a prática precisa entrar no cotidiano.

Você pode começar com exercícios pequenos.

1. Comer com atenção por três mordidas

Não precisa fazer a refeição inteira em silêncio. Comece com três mordidas. Observe cheiro, textura, temperatura, gosto e movimento da mastigação. Quando a mente sair, volte para a próxima mordida.

2. Banho de um minuto

Durante um minuto do banho, sinta a água na pele, o som, a temperatura, o movimento das mãos. Se pensamentos aparecerem, note e volte.

3. Conversa sem celular

Escolha uma conversa curta e deixe o celular de lado. Ouça de verdade. Observe a vontade de olhar a tela. Volte para a pessoa.

4. Tarefa doméstica consciente

Lave um prato, dobre uma peça de roupa ou limpe uma superfície prestando atenção apenas nessa ação. Se a mente listar todas as outras tarefas, volte para esta.

5. Planejamento consciente

Reserve dez minutos para planejar o dia seguinte. Durante esse tempo, planeje. Depois, quando terminar, feche a lista e volte para a próxima atividade.

6. Preocupação com horário marcado

Se a preocupação aparece o dia inteiro, escolha um horário curto para escrevê-la. Pergunte: “há algo que eu possa fazer?”. Se sim, defina um passo. Se não, pratique retornar ao presente.

O que fazer quando a mente sai?

Ela vai sair. Isso não é erro. A prática é voltar. Quando perceber que está longe, diga internamente: “voltar”. Não precisa brigar. Não precisa se julgar. Não precisa fazer um discurso. Apenas volte.

Se está comendo, volte para o gosto. Se está ouvindo, volte para a voz. Se está caminhando, volte para os pés. Se está trabalhando, volte para a tarefa. Se está planejando, volte para o plano. Se está descansando, volte para o descanso.

Cada retorno fortalece a habilidade. O objetivo não é atenção perfeita; é consciência repetida.

Fazer uma coisa de cada vez e efetividade

Essa habilidade se conecta diretamente à efetividade. Quando a atenção está dividida, erramos mais, ouvimos menos, reagimos mais rápido e nos cansamos mais. Quando fazemos uma coisa de cada vez, aumentamos a chance de fazer o que funciona.

Ser efetivo, na DBT, é fazer o que funciona para alcançar objetivos, em vez de ficar preso ao que parece justo, confortável ou ao que a mente emocional exige. O manual para terapeutas destaca que efetividade depende de conhecer o objetivo, conhecer a situação real e reagir a ela. Fazer uma coisa de cada vez ajuda nisso porque permite enxergar melhor qual é a situação real.

Se você está conversando com alguém e, ao mesmo tempo, preparando ataques mentais, talvez não escute o que foi dito. Se está resolvendo uma tarefa e, ao mesmo tempo, ruminando uma briga, talvez erre mais. Se está descansando enquanto se culpa, talvez não recupere energia. A atenção plena a uma coisa por vez torna as ações mais efetivas.

Essa habilidade não é produtividade disfarçada

É importante não transformar essa prática em mais uma cobrança produtiva. Fazer uma coisa de cada vez não significa produzir mais para valer mais. Não é uma técnica para virar uma máquina eficiente. Na DBT, ela é uma habilidade de presença e liberdade.

Às vezes, fazer uma coisa de cada vez significa trabalhar com foco. Outras vezes, significa descansar de verdade. Significa chorar sem se atacar. Significa brincar sem culpa. Significa comer sem tela. Significa escutar uma música sem tentar resolver a vida. Significa estar com alguém querido sem estar mentalmente em outro lugar.

Uma vida que vale a pena ser vivida não é apenas uma vida produtiva. É uma vida vivida. A habilidade ajuda a não perder a própria vida em distração, ruminação e pressa.

Quando fazer uma coisa de cada vez parece impossível

Algumas pessoas têm mais dificuldade por ansiedade, TDAH, trauma, excesso de demandas, uso constante de tecnologia, ambiente caótico ou hábito antigo de ruminar. Nesses casos, comece muito pequeno. Trinta segundos já contam. Uma mordida já conta. Uma respiração já conta. Uma frase ouvida até o fim já conta.

Também é útil reduzir distrações externas. Coloque o celular longe por cinco minutos. Feche abas desnecessárias. Use uma lista para tirar tarefas da cabeça. Avise a si mesmo: “agora estou fazendo isto”. Quando a mente trouxer outra coisa, anote para depois e volte.

Se emoções fortes surgirem, talvez primeiro seja necessário usar uma habilidade de tolerância ao mal-estar. Fazer uma coisa de cada vez não é uma regra rígida; é uma direção. Faça da forma mais possível naquele momento.

Um exercício de sete dias

Para começar, escolha uma prática por dia:

  1. Dia 1: escove os dentes prestando atenção aos movimentos.
  2. Dia 2: coma as três primeiras mordidas de uma refeição sem distração.
  3. Dia 3: lave uma louça concentrando-se apenas na louça.
  4. Dia 4: caminhe por cinco minutos sentindo os pés no chão.
  5. Dia 5: ouça alguém por dois minutos sem interromper.
  6. Dia 6: planeje uma tarefa por dez minutos e depois pare de planejar.
  7. Dia 7: descanse por cinco minutos sem tentar “merecer” o descanso.

Depois de cada prática, anote rapidamente: o que fiz? Para onde minha mente foi? Como voltei? O que percebo agora? Essa forma de registro é coerente com as fichas de tarefas da DBT, que pedem ao praticante que descreva a experiência, incluindo sensações corporais, emoções e pensamentos durante e depois da prática.

Uma coisa de cada vez em momentos difíceis

Em crise, a habilidade pode ficar ainda mais simples: “agora, uma coisa”. Agora, afastar o objeto perigoso. Agora, beber água. Agora, ligar para alguém. Agora, sair do ambiente. Agora, respirar. Agora, esperar dez minutos. Agora, não enviar a mensagem. Agora, procurar ajuda.

A crise tenta transformar tudo em urgência total. Fazer uma coisa de cada vez reduz o tamanho do momento. Você não precisa resolver toda a vida. Precisa atravessar este minuto sem piorar. Depois, o próximo. Depois, o próximo.

Essa é uma forma profunda de cuidado. Quando a mente diz “é demais”, a habilidade responde: “só esta coisa agora”.

Voltar para a vida, uma ação por vez

Fazer uma coisa de cada vez é uma habilidade simples, mas não pequena. Ela toca a forma como vivemos. Quando a mente está sempre dividida, a vida fica borrada. Os dias passam, as relações passam, o corpo envia sinais, as emoções crescem, e quase nada é vivido com presença. A DBT oferece essa prática como um retorno.

Retorno ao agora. Retorno ao corpo. Retorno à tarefa. Retorno à conversa. Retorno ao prato que está sendo lavado, à comida que está sendo comida, à pessoa que está falando, ao passo que está sendo dado, à emoção que está presente, à habilidade que pode ser usada.

Essa prática não apaga problemas. Não muda o passado. Não controla o futuro. Mas diminui a quantidade de sofrimento extra que a mente acrescenta quando tenta viver todos os tempos ao mesmo tempo. Ela ajuda você a sofrer apenas a dor deste momento, quando houver dor. E a viver o prazer deste momento, quando houver prazer.

Em uma vida acelerada, fazer uma coisa de cada vez pode parecer pouco. Na verdade, é uma forma de recuperar a própria atenção. E recuperar a atenção é recuperar uma parte da liberdade. A cada vez que você volta, mesmo que por poucos segundos, está treinando a capacidade de escolher onde colocar sua mente.

Na DBT, essa escolha é fundamental. Porque, quando você consegue estar presente a uma coisa por vez, fica mais possível acessar a mente sábia, agir com efetividade, reduzir impulsos e construir uma vida que realmente possa ser vivida, não apenas atravessada no automático.

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Referências bibliográficas

  • Linehan, Marsha M. Treinamento de habilidades em DBT: manual de terapia comportamental dialética para o terapeuta. 2ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2018.
  • Linehan, Marsha M. Treinamento de habilidades em DBT: manual de terapia comportamental dialética para o paciente. 2ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2018.
  • Koerner, Kelly. Aplicando a Terapia Comportamental Dialética: um guia prático. Novo Hamburgo: Sinopsys, 2020.
  • Galen, Gillian; Aguirre, Blaise. DBT: Terapia Comportamental Dialética Para Leigos. Rio de Janeiro: Alta Books, 2022.
  • Van Dijk, Sheri. Não deixe as emoções comandarem sua vida: habilidades de DBT para adolescentes. 2ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2025.

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